No Brasil, cidadania é tornar-se economicamente produtivo, trabalhando mais de quatro meses por ano para sustentar cofres públicos administrados por gente perversa e maliciosa que visa apenas o ganho de capital político e o acúmulo de riqueza e poder; é permitir que o Estado lhe roube mais de 40% do suado rendimento em troca de esmolas e serviços públicos medíocres, enquanto o alto escalão do funcionalismo público no Legislativo, no Executivo e no Judiciário goza de benefícios dignos de marajás – fora o caixa dois – e o pobre espera o aumento de cem reais no mínimo para comprar a picanha.
Cidadania brasileira significa abrir mão da autonomia pessoal em favor de pensamentos e movimentos de massa, de ideais identitários, da sanha coletivista e da trágica negação do eu, ainda que essas praxes estejam pautadas nas mais insanas justificativas, ainda que ao buscar o respeito e a admiração alheia o candidato a cidadão se envolva tão emocionalmente em tudo a ponto de transformar em histeria seu precioso potencial cognitivo. Cidadão na terra da “ordem e progresso” não precisa ser inteligente, basta tolerar a burrice e omitir-se diante da própria ignorância; não precisa ser criminoso, basta ser conivente com o crime e com a mentira. Cidadão que é cidadão não se preocupa com questões morais, senão com as que lhe alimentam a vaidade, questões morais a maioria das quais imposta por teóricos iluminados, a tal intelligentsia moderna, cujos apurado senso crítico e notável saber científico vêm sendo forjado para reescrever a História segundo sua visão de mundo.
No Brasil, ser cidadão é ser um otário convicto e conformado, é ser manipulado, feito de trouxa por políticos e juízes sociopatas, por elites dinheiristas e por uma mídia podre, inepta, oportunista e maquiavélica, e ainda alegrar-se com isso, agarrando-se à grata certeza de ter atingido o ápice da sabedoria, da independência e da liberdade de pensamento, do amor ao próximo, da gentileza e da humanidade. Para ser cidadão num país onde o crime compensa é preciso acima de tudo omitir-se diante do absurdo, vomitar meia dúzia de chavões convenientes em nome da democracia. Como se não bastasse tanto delírio, para ser cidadão nessa joça, é imprescindível adotar o vitimismo e impor o ódio a todos que pensam diferente e são imunes à cegueira coletiva.
Como cereja do bolo, ser cidadão no Brasil é estar perdido na intimidade da própria consciência, é ser plena e decisivamente indiferente aos princípios básicos da dignidade humana, é crer estupidamente na idéia de progresso e, com igual paixão, ignorar as verdades eternas. Em suma, se você quer mesmo se tornar um verdadeiro e respeitado cidadão, jamais permita que suas palavras e ideais correspondam às suas ações.