O erro do racionalismo moderno

O racionalismo moderno é basicamente a crença de que a razão humana — isolada da experiência concreta, da tradição e da realidade vivida — é capaz de reconstruir o mundo do zero. Se pararmos para pensar seriamente, meditando um pouco sobre essa afirmação, ela vai nos revelar uma ruptura perigosa com a ordem da realidade.

Antes de desenvolver propriamente esse raciocínio, façamos um breve exercício de contextualização histórica, aplicando uma lente um pouco mais ampla para identificar as raízes dessa corrente filosófica e, a partir daí, melhor desenvolver a compreensão de onde está o erro.

O racionalismo moderno nasce praticamente com René Descartes, matemático, físico e filósofo francês que viveu na primeira metade do século XVII, período em que publica suas idéias entre as décadas de 1630 e 1640. No coração de sua filosofia está o método cartesiano, em que se propõe começar o conhecimento a partir de uma dúvida radical e, então, reconstruí-lo com base em idéias que ele chama de claras e distintas.

É importante também destacar dois aspectos da formação de Descartes que parecem relevantes se quisermos traçar o perfil psicológico do pensador cuja teoria viria a transformar completamente a forma de pensar e agir no mundo moderno. Um é o de que Descartes estudou em um colégio jesuíta no qual era considerado um filósofo meia-boca; outro é o de que teria sido iniciado na irmandade secreta Ordem Rosacruz, parente próxima da Maçonaria. Se essas duas particularidades são boas ou ruins, cabe-nos perguntar. Por ora, guardemos essas duas informações, pois elas podem ajudar e muito a fluidez das nossas reflexões no decorrer do texto.

De início, a filosofia de Descartes nos dá a impressão de estar comprometida com a verdade. Mas será isso mesmo que o filósofo procura? Haverá algum ruído conceitual ou mesmo de caráter percorrendo as entrelinhas de seu ideário? Se a filosofia de Descartes for um erro, trata-se de um desvio moral, espiritual ou de uma eficiência empreendedora? É seguro confiar nas palavras de um homem cuja biografia é permeada de traços sensíveis à inteligência e às condutas virtuosas? Seja como for, é preciso que comecemos também nós a duvidar da proposta de Descartes, já que seria legítimo, como o próprio filósofo sugere, duvidar de tudo.

Dito isso, que seria então uma dúvida radical? Bem, para Descartes o mundo é uma grande patifaria criada por um gênio do mal para nos enganar e manipular, tipo uma matrix; por isso, seria preciso duvidar de tudo. No entanto, a própria razão nos obriga a supor que, sendo assim, essa regra não deveria se aplicar ao próprio Descartes, já que sendo ele fonte viva da verdade, foi-lhe permitido no momento oportuno deixar as dúvidas de lado e apelar para Deus a fim de justificar um ou outro senão conveniente a sua teoria.

E que seriam as idéias claras e distintas? As idéias claras e distintas são para Descartes o critério de verdade. Segundo ele, só é possível chegar a uma verdade absoluta através desse método; em outras palavras, nós só podemos aceitar como seguro e verdadeiro aquilo que a mente percebe de modo claro e distinto.

Uma idéia é clara quando aparece à mente com evidência, sem confusão, como algo presente e iluminado. Por exemplo, quando alguém está pensando, percebe isso diretamente, sem necessidade de provas; é impossível que alguém não esteja pensando quando está pensando; isso está claro à mente, a pessoa sabe, sente que está pensando.

Por sua vez, uma idéia é distinta quando está separada de outras idéias, com limites bem definidos entre elas, sem mistura nem confusão. Por exemplo, um triângulo é uma figura geométrica de três lados iguais; ele não se confunde com um quadrado, um círculo ou um pentágono; existe uma diferença muito bem pontuada na forma de cada uma dessas figuras que as torna totalmente independentes uma da outra.

Em suma, uma idéia clara é evidente, presente à mente; uma idéia distinta é precisa, sem mistura nem confusão com outras idéias. É a partir dessa descoberta magnífica, própria de seres iluminados, que surge a declaração decisiva de Descartes: quando algo é claro e distinto ao mesmo tempo, deve ser considerado verdadeiro. Voilà. É assim que se chega ao princípio “Penso, logo existo”. Pronto, com esse método a existência do pensamento é percebida clara e distintamente.

Mas será mesmo preciso um método como esse para admitir essas coisas? Penso que isso não significa nada no sentido de estabelecer o reconhecimento de uma verdade absoluta, já que o ato de inteligir parte justamente de uma razão previamente consciente. Quem definiu se as idéias são claras ou distintas foi uma mente capaz de intuir as questões e fazer distinções sobre uma realidade que já é inteligível e distinta por natureza. A verdade está no objeto de intelecção, e não no sujeito que inteligiu.

Hoje essa teoria me parece um pouco estúpida, e até infantil; a meu ver trata-se do óbvio travestido de complexo, um tipo de dissimulação destinada a derrotar todos os porquês; enfim, um gênero de desvio mental que só o talento de uma mente gnóstica poderia produzir. Houve um tempo em que eu acreditava em distorções cognitivas como essa; hoje já não me deixo seduzir. Com o tempo e o amadurecimento intelectual gradativo fica mais difícil fraquejar, pois o grito da realidade vai ficando cada vez mais estrondoso.

Quanto a Descartes, o grito que parece retumbar em sua vida não é este do mundo sensível, concreto e palpável, mas um grito interior perturbando-lhe a alma em busca de um reconhecimento que o torne como Deus criador aqui na Terra.

É justo admitir que estamos falando de um homem dotado de inteligência, mas trata-se de uma inteligência das ciências exatas, que quer transformar tudo em matemática e não tem compromisso sério com as verdades substanciais. O compromisso com a verdade, em consonância com uma coisa chamada virtude, é próprio apenas de verdadeiros filósofos, e a filosofia de Descartes parece se opor frontalmente ao Descartes filósofo.

Uma das interrogações que podem nos ajudar a compreender um fenômeno nítido de paralaxe cognitiva na postura de um filósofo é a mesma que pode ser feita a qualquer um de nós: por que um ser humano inteligente se deixa enganar em questões básicas e óbvias? Olhe você mesmo com atenção para a realidade viva e concreta à sua volta e medite sobre ela; pense em sua biografia, nas histórias que compõem a sua vida e nas circunstâncias que lhes dão credibilidade; examine suas experiências e os pensamentos que despertam sua curiosidade sobre o sentido da vida; faça perguntas a si mesmo e pense nos referentes do mundo concreto, sem os quais a mente humana não passaria de um limbo ausente de signos e significados que impossibilitaria o desenvolvimento de uma linguagem. Se depois de uma reflexão bem meditada você ainda crer que tudo que existe é criação da sua cabeça, saiba: seu pensamento é gnóstico.

Penso; logo, existo. O cogito cartesiano é uma teoria sedutora, de fácil assimilação e simpática às idéias de liberdade, igualdade e fraternidade que ela mesma inspirou; pode ser aceita como verdade acabada por qualquer um, independente do QI, dispensando a inconveniência de provas científicas e o esforço do exame positivo. O mundo moderno se deu muito bem com ela.

Ora, mas por que questionar uma teoria tão badalada, aparentemente legítima e perfeita? Porque a partir deste ponto na história do pensamento surge um inconveniente que vai gerar uma desordem tal da linguagem, cujas consequências estamos vivendo nos dias de hoje. Com o passar dos séculos, o método cartesiano foi sendo levado tão a sério que saiu atropelando tudo que é óbvio, acabando com a hegemonia da realidade, o que também permitiu dessensibilizar as ações humanas de tal modo sem precedentes na História. É importante meditar sobre essas coisas para identificar as segundas intenções de Descartes, porque parece que ele queria mesmo reconstruir todo o conhecimento humano.

A regra que Descartes propõe com seu método é aceitar apenas aquilo que for percebido clara e distintamente. Esse se torna o fundamento do racionalismo moderno. Contudo, vale frisar que o problema desse sistema de pensamento não é o fato de se fazer uso da razão — é natural e imprescindível que se faça uso da razão, afinal isso nos torna seres humanos completos. Acontece que a partir de Descartes passou-se a absolutizar a razão de tal forma que a idéia de transcendência foi desaparecendo do mapa humano, dando lugar à adorada imanência do ser. Sob o pretexto de colocar em pauta um conceito que liberte o homem das amarras e da dependência do metafísico e da realidade vivida, cria-se algo que limita a essência humana e vandaliza sua existência. As considerações ontológicas — ciência do ser —, são diminuídas e passam por um processo gradativo de falsificação: os conceitos de existência, ser, devir e realidade passam a significar unicamente pensamento.

Esse processo foi se desenvolvendo de forma vertiginosa nos últimos cinco séculos, e se mostra vivo e operante ainda nos dias de hoje, em pleno e constante aperfeiçoamento, de modo que segue orientando todos os aspectos da existência humana, sobretudo da comunicação. É preciso muita coragem e honestidade intelectual para admitir que desde o século XVII vem se desenvolvendo um sistema de pensamento que, direta ou indiretamente, escraviza a razão. A idéia genial foi libertar o homem da dependência do transcendente para torná-lo escravo do imanente. Atentar-se a isso é uma questão de sobrevivência, caso contrário essa anomalia nos transformará em verdadeiros párias, vivendo como mortos-vivos, em uma sociedade dirigida por máquinas. Se isso tudo soa como um escândalo escatológico, temos cinco séculos de razões para acreditar que se trata de uma realidade plausível.

A crise inaugurada com o racionalismo moderno está em tratar a razão como sendo uma ferramenta auto-suficiente, no sentido de que ela vai sendo moldada para se bastar em si mesma, independente da realidade que lhe ofusca a visão. É um tipo de conduta intelectual que reduz a realidade concreta a modelos abstratos. Ou seja, tudo que eu vejo no mundo deve vir depois do meu pensamento. Em outras palavras, as coisas existem porque eu as penso, e não o contrário.

Neste momento, alguém poderia dizer: ”Peraí! Isso está errado, porque se eu penso numa Ferrari, ela não aparece na minha frente. Logo, o pensamento não cria a realidade.” Sim, é verdade; mas acontece que o racionalismo moderno não afirma exatamente que o pensamento cria materialmente as coisas. O ponto é mais sutil, e é justamente por isso que ele é tão perigoso. O problema é que a partir de René Descartes, a ordem do conhecimento começa a ser invertida.

Antes do racionalismo moderno, a lógica era a seguinte: primeiro tem a realidade, depois a experiência, e depois, finalmente, a compreensão pela inteligência. Depois do racionalismo moderno, a lógica passa a ser outra: primeiro vem a certeza interior, depois uma idéia clara e distinta, e então a realidade se adequa a essa certeza interior.

Perceba a mudança, a inversão da lógica. O problema do racionalismo não é provocar a idéia de que uma Ferrari vai aparecer em sua frente só porque você pensou nela. A questão é outra: as pessoas passarem a acreditar que aquilo que não cabe em seu modelo mental é menos real, ou até falso, inexistente.

Esse é o erro profundo. A razão deixa de ser um instrumento para conhecer o real e passa a ser um filtro que decide o que pode ou não ser real. Não é mais a inteligência que se adapta à realidade, é a realidade que se adapta à inteligência. Sendo assim, qualquer um pode dizer que é o poste que mija no cachorro.

A verdade é que o racionalismo moderno produziu uma consequência gigantesca na ordem das coisas, porque o mundo concreto passou a ser substituído por construções abstratas. Note que hoje em dia, para a surpresa de zero pessoas que realmente pensam, é comum deparar com gente fazendo os malabarismos mentais mais incríveis para distorcer o óbvio e justificá-lo com construções mentais as mais surreais, seja por ignorância, vaidade ou interesses convenientes. Esse tipo de distorção mental que domina a linguagem do nosso tempo só é possível graças ao desenvolvimento e ao culto do racionalismo moderno.

A experiência humana viva, com sua História, tradição, costumes, intuição moral, sabedoria acumulada, conhecimento de mundo e experiência, passa a ser vista como algo inferior, confuso e irracional, e na modernidade mais recente evolui para as visões estigmatizadas de opressão, autoritarismo, mentalidade atrasada e demais frases prontas politicamente corretas que pautam o debate público.

Todo ser humano que se preze deveria saber que as coisas não são bem assim. Faça você mesmo o exercício: acesse com honestidade a intimidade de sua consciência e você verá. Quem já experimentou em algum momento as maravilhas de uma vida saudável física, mental e espiritualmente sabe disso.

Acontece que, infelizmente, o racionalismo moderno criou uma brecha mental que está destruindo a capacidade cognitiva humana natural. Só vale o que pode ser reconstruído racionalmente do zero. É aqui que nasce a ruptura perigosa, porque todo mundo sabe que a realidade é maior do que qualquer sistema mental.

A realidade concreta é histórica, cheia de nuances, contraditória em aparência, rica em significados implícitos, cheia de ambiguidades que só podem ser esclarecidas justamente porque existe uma coisa chamada inteligência que, para funcionar direitinho, depende intrinsicamente de outras duas coisas chamadas realidade física e realidade metafísica, fontes vivas das nossas impressões e experiências. Mas o racionalismo moderno discorda da gente, exigindo clareza absoluta, distinção perfeita, dedução lógica, estrutura geométrica, independentes do mundo concreto, do transcendente e do movimento das coisas, alheios ao tempo e ao espaço. O que não cabe nesse modelo é descartado.

É exatamente aqui que começa o problema filosófico — e também cultural —, porque quando a realidade é reduzida a esquemas mentais, inevitavelmente começa-se a simplificar o ser humano, simplificar a moral, a sociedade, a tradição e a própria verdade; começa-se a simplificar a lógica e até a identidade das pessoas, quem elas realmente são; e, no fim, o indivíduo passa a viver mais dentro de sua cabeça do que inserido do mundo, a ponto de dizer que dois mais dois são cinco. Essa é a crítica central que todos nós deveríamos fazer ao racionalismo moderno, por obrigação e pela preservação da raça humana.

Também é importante lembrar que pensamento não é matemática; em matemática, dois mais dois serão sempre quatro e nem Deus poderia mudar essa realidade. O pensamento, porém, não se realiza verdadeiramente enquanto estiver submetido à intransigência de dados positivos, os quais estão inseridos no espaço e no tempo cronológico, e não se identificam com a eternidade. Na eternidade, passado, presente e futuro são uma coisa só; portanto, só poderia haver lugar para a inteligência, tornando-se a ciência positiva desnecessária.

Cabe neste momento esclarecer que o objetivo deste ensaio é iluminar o que está na superfície do problema, cabendo aos curiosos e desconfiados aprofundar-se na investigação. Ademais, a crítica aqui não é a de que o racionalismo moderno faça uso da razão, pois fazer uso da razão é correto e necessário; a crítica é a de que o racionalismo moderno absolutiza invariavelmente a razão e mutila a realidade ao dar brecha para abstrações forçadas e artificiais.

A razão deixou de ser humilde diante do ser e passou a agir como engenheira do mundo. Quem discordaria que hoje em dia existe uma espécie de engenharia social dirigindo os costumes e até a liberdade de pensamento? Quando essas coisas acontecem, nasce a tentação de reconstruir tudo: a moral, a política, a cultura, a educação, os costumes, as leis, e até a natureza humana. Tudo passa a ser visto como projeto. Esse é o ponto onde o racionalismo deixa de ser apenas uma teoria do conhecimento e se transforma em uma visão de mundo, que leva a um mundo em plena transformação.

É aí que começam as consequências históricas. Muita gente já deve ter ouvido alguém dizer que a filosofia não deve apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo através da ação prática e política. Eis a sanha maliciosa que o racionalismo criou. Há pouco, falávamos da idéia de Descartes, lá no século XVII, querer reconstruir o conhecimento. Pois é, estamos no século XXI, em um mundo que gira em plena transformação. Isso sim me parece uma idéia clara e distinta. Penso que essa transformação que estamos vivendo hoje seja uma coisa miserável; logo, deve ser mesmo verdade.

Digna miséria

Enquanto o clima fétido de Brasília revela a podridão e decadência dos seus esgotos é possível se distrair com o BBB Banânia. Trata-se de um programa divertido, pedagógico e muito exemplar. Ninguém pode dizer que um reality show de relevância e sucesso como esse não seja legítimo, já que apresenta um retrato perfeito das relações humanas no mundo moderno. Distrações fúteis e medíocres são sempre o melhor remédio para impedir que as pessoas exerçam funções cognitivas saudáveis. Daí, a exasperação imaginativa e os surtos emocionais que há tempos dominam a forma como os seres humanos se relacionam e se expressam artisticamente. O sistema agradece colocando no ar programas de televisão extravagantes que esfregam na cara do povo a realidade de sua existência; o povo aceita, agradece e se delicia com isso, afinal é preciso estabelecer uma conexão afetiva com o mundo e consigo mesmo, sentindo-se acolhido e representado.

Eis o recorte da digna miséria que conduz a brasilidade rumo à estimada ordem e progresso de uma República decadente. República, aliás, criada para ser exatamente como é, verdade seja dita. Pois é melhor que assim seja, já que tem muita coisa ainda para se ressignificar. Logo, é imprescindível que o povo não atrapalhe, continue pagando quietinho seus impostos e repita como papagaio o que sai no noticiário e nas redes sociais, visto que o país precisa crescer e se livrar do fascismo. Mais importante ainda é que o povo se mantenha no modo inocente ou idiota útil, para assim se lambuzar de boas com o pão e circo que o sistema lhe entrega. Aberrações morais tendem a se propagar de forma vertiginosa, principalmente quando se vive em um país onde ignorância é sinônimo de autoridade intelectual.

Ninguém é obrigado a concordar com a verdade, eu sei; por isso é que vale tanto a pena dizer a verdade. Sendo assim, é de suma importância que, por mera empatia, por mera covardia ou por mera vaidade, as pessoas continuem acreditando no caráter elevado de homens sem caráter — o que não é muito difícil, já que a verdade é relativa e não se tem mais condições de discernir entre o que é certo e o que é errado.

Portanto, não importa que a turma lá de cima despreze as necessidades reais do povo brasileiro, desde que no discurso estejam apresentando boas intenções, dando sinais de virtude, pronunciando chavões politicamente corretos e divulgando pautas ideológicas úteis. Por isso é necessário que os cidadãos continuem militando, sejam fiéis e conservem com amor e carinho seus políticos de estimação, para que estes mantenham a democracia intacta e protejam o povo já tão sofrido de mais ameaças que possam lhe roubar direitos essenciais para a sua sobrevivência, a saber: liberdade, fraternidade e igualdade.

Talvez desenhar fosse preciso, mas seja como for, no fim das contas, apesar de tantos escândalos e relações no mínimo pornográficas entre os poderes da República, envolvendo políticos, empresários e “homens da Lei”, o que realmente importa é que as pessoas se divirtam ou se compadeçam com a desgraça alheia; acima de tudo, importa que as pessoas saibam, repitam e acreditem piamente que o Brasil está do lado do povo brasileiro. Isso sim é compromisso com a democracia; isso sim é nota de pertencimento; isso sim é ter dignidade.

O poder do livre-pensamento

A influência do pensamento marxista deixou graves cicatrizes em nossa sociedade. Hoje é possível provar o gosto amargo de seus frutos. Basta um pouco de sensibilidade e um breve olhar ao redor para se ter uma idéia de como essa ideologia afeta a orientação dos nossos princípios e a formação da nossa visão de mundo.

Se tal formulação estiver correta, o segredo para entender o pensamento da opinião pública em nosso tempo está na definição de verdade. Seguindo a lógica do ideário marxista — tentando ser “científicos” na análise —, seríamos todos obrigados a admitir, inclusive sob pena de punição severa, que a verdade não é algo que é, mas algo que se faz, ou, se preferirem, que se cria. É que a verdade para o marxismo é um constructo, ou seja, ela só pode ser alcançada, com muito trabalho e sacrifício, por peritos muito bem treinados e notáveis conhecedores da doutrina, a saber: os marxistas. Segundo essa gente, a verdade só pode ser revelada cientificamente, através da análise crítica e profunda dos discursos por trás dos quais reinam os interesses de classe.

Aliás, é conveniente deixar aqui uma nota importante e irônica a esse respeito: o discurso marxista não pode ser enquadrado nesse conceito, pois está isento de julgamentos; a presença de interesses de classe nos discursos marxistas é algo que não se deve discutir, senão para descobrir que “deturparam o marxismo”.

Se ainda assim a curiosidade humana insistir em perguntar o porquê, é melhor esquecer, pois toda pergunta que aponte contradições no pensamento marxista só faz piorar a loucura, provocando mais argumentos insanos e malabarismos mentais que legitimem o que não se pode legitimar em um mundo de mentes saudáveis. Mesmo os intelectuais e militantes mais perspicazes sequer responderão a quaisquer objeções, senão através dos manjados disparates, delírios e arranjos geniais que só eles sabem fazer. Se um delinquente rouba o seu celular e atira em sua cabeça, o marxista não vê aí a evidência do fato concreto, a verdade gritante de que uma pessoa lhe roubou e matou a tiros; o que ele vê é uma elucubração ampla e complexa, que só um tratado de quinhentas páginas de alguma ciência marxista do sujeito oprimido poderia explicar.

Com o passar do tempo, essa noção, que coloca a intelligentsia marxista como sendo uma espécie rara e virtuosa de cientistas da verdade, transcende a formulação original de Marx e decai, para deleite geral, no uso comum. A coisa então evolui naturalmente para o estado de coisas que observamos nos dias de hoje: elaborar, criar e expressar noções de verdade tornou-se atributo de qualquer um, basta ter cérebro ativo e saber contar até três. As palavras e ações dos indivíduos têm o mesmo valor e peso moral, trate-se de um cidadão do bem ou do mal, gênio ou inepto, intelectualmente saudável ou não, a despeito da realidade e dos fatos concretos que se possa confirmar com os próprios olhos.

A mentalidade marxista nos obriga a pensar que a verdade não é, ela se faz. Ora, se a verdade é algo que só possa ser feito ou criado, isso implica que sua essência seja variável e sua substância inevitavelmente relativa e efêmera. Sua presença na comunicação humana se torna assim utilitária, visando apenas meios e nenhum fim senão o que gera capital político e autoridade moral a grupos de poder, além de facilitar o crescimento pessoal através de afirmações de virtudes não raro artificiais e inconsistentes.

Se portanto é variável a verdade, ela pode ser livremente formulada por todos e qualquer um a qualquer momento e em qualquer posição ou situação, seja no presente concreto, no passado acabado ou no futuro desejado. Sendo livremente formulada, ela deve ser livremente aceita, o que paradoxalmente legaliza o dever geral de aceitar que todos tenham direito de formulá-las tal como desejarem.

Diante de tais circunstâncias, a existência da verdade e sua importância dependem unicamente da adesão subjetiva que lhe é dada; logo, se cada indivíduo tem a liberdade e a capacidade natural de criar verdades, então toda a realidade, visível e invisível, só poderia ser criação humana.

A lógica pois nos obriga a supor que, sendo assim, o próprio Marx e seus adeptos são também criadores de verdades. No entanto, para a surpresa de ninguém, todo marxista dirá que, ao contrário das demais, as suas verdades são legítimas, porque científicas, e não criadas ideologicamente. Ora — dirão os críticos do marxismo —, se existem verdades legítimas, então a verdade não pode ser relativa! Pois é, para acabar com a briga, resolvamos a discussão dizendo que para o pensamento marxista e, consequentemente, para a mentalidade esquerdista em geral, a única verdade existente é aquela que favorece a revolução. Portanto, não há contradição alguma no pensamento marxista, senão a mais pura coerência.

Isso nos leva a crer na idéia de que todas as proposições de verdade que não estejam alinhadas aos objetivos revolucionários são aquelas por trás das quais existem interesses de classe. Karl Marx e seu séquito de companheiros iluminados seriam assim os arautos da sabedoria, salvadores da humanidade, únicos seres capazes de redimir a sociedade, pois tendo eles o mérito e a glória dos escolhidos, livrariam-nos da opressão capitalista, paternalista e cristã, cabendo somente a eles a autoridade moral e o conhecimento científico para fazer único e aceitável juízo sobre todas as ações humanas.

Está na cara que tudo não passa de farsa polida; o que se quer na realidade é destruir os pilares culturais que sustentam a civilização ocidental para construir no lugar algo que não se sabe exatamente o que é, apenas o que se pode ganhar com isso, material, psicológica ou politicamente. O inimigo não quer simplesmente corrigir e aperfeiçoar as imperfeições da História, mas transformá-la completamente, ainda que o resultado de tal transformação seja uma verdadeira catástrofe. A pá de cal já está em pleno movimento, sob orientação de uma engenharia social aplicada à total dessensibilização dos afetos e degeneração das capacidades cognitivas humanas.

Em outras palavras, essa dita transformação significa colocar a atual sociedade abaixo e criar uma nova, isolada, controlada e administrada por uma nova ordem mundial. Mas nenhum marxista em sua sã demência irá descrever como é exatamente a sociedade perfeita que o movimento vislumbra. Isso porque não existe desenho algum de sociedade perfeita; a única coisa que existe é o prazer individual pela participação na práxis revolucionária.

Cabe neste momento uma nota importante: há décadas no Brasil as universidades, o ambiente político, a elite artística e a mídia estão empesteados de intelectuais empenhados na construção de um mundo melhor; no entanto, o mundo está cada dia pior.

Com a morte da verdade acabada — dita opressora —, e a adesão ao livre-pensamento, cessam as afirmações intolerantes e ficam apenas as impressões variadas, benevolentes e amplas, sustentáculo das noções de igualdade, liberdade e fraternidade modernas que regem a fabulosa orquestra humana em franco progresso.

Como conclusão, é preciso ter em mente que às novas gerações principalmente deve-se dirigir o mais pleno e comprometido esforço de conscientização, lançando com amor e generosidade os alertas precedentes.

Atenção! Em combate, o inimigo certamente dirá que se a verdade fosse uniforme e definida, não haveria espaço para a inteligência humana, a qual nesse caso estaria subjugada, escravizada por ela. Dirá também que para que o espírito humano prospere é preciso que não haja verdades nem certezas absolutas, e que só assim se alcança a emancipação e o desenvolvimento do senso crítico tão caros à razão. Dessa forma, o pensamento não mais estaria submisso à dominação constrangedora e tirânica da verdade.

Mas não se enganem, estejamos atentos, tudo não passa de ladainha, raciocínio doentio e moralmente diabólico. A norma que alimenta o pensamento progressista – atualização do marxista – é variar as definições de todos os termos da linguagem, modificando o vocabulário e o sentido das palavras com o objetivo de adequar o entendimento humano sobre as coisas às conveniências e necessidades do partido e das elites no poder: é preciso relativizar tudo, constante e indefinidamente, viralizando a liberdade, a independência e o prazer irrestrito dos sentidos individuais.

O relativismo universal é o mundo colorido do messias moderno, progressista e identitário. No cenário escatológico pré-fabricado que está sendo jogado em nossa cara, nota-se como sendo preferível o erro livremente apreendido à verdade dura que se impõe em sua nobre e perfeita nudez. Livre-pensamento é utopia, anarquia. Diferente do que nos fizeram pensar, trata-se de algo nascido de sanhas totalitárias e não tem nada a ver com democracia ou qualquer clichê politicamente correto. O pensamento livre, como o quer a modernidade, só é possível em detrimento da verdade. A idéia do pensamento livre em si mesmo, sem considerações reflexivas e auto-conscientes, contradiz a própria lógica do pensamento racional humano, pois o livre pensar, sobretudo na sociedade dinâmica e imediatista em que vivemos, é a melhor maneira de não pensar no que foi dito.

Pelo medo da verdade

O principal objetivo da propaganda petista, ou seja, de basicamente tudo que eles dizem, não é persuadir, conscientizar, alertar ou informar a população de um perigo real e imediato que esteja colocando em risco princípios caros à humanidade como democracia, liberdade, igualdade, fraternidade e demais clichês virtuosos, mas precisamente humilhar, calar e oprimir todos que se oponham aos interesses do partido. Quanto mais dissimulada for a narrativa, tanto mais realizável será seu real propósito, a saber: obter o consentimento de uma massa anêmica de cidadãos que, consciente ou inconscientemente, adere a um projeto totalitário de poder travestido de democracia.

Trata-se de algo que não acontece natural e repentinamente. É impossível criar um sistema de tal magnitude assim do dia para a noite. Voltando um pouco no tempo, na cabeça de Marx a sociedade é formada por uma infraestrutura de bases econômicas que sustentam uma superestrutura de aspectos culturais cujas ideologias são cultivadas pelos interesses de classe provenientes da infraestrutura. Sendo assim, é preciso atacar a infraestrutura para destruir a superestrutura.

No início do século XX, porém, um tiozinho italiano inverte essa ordem, et voilà, está instituído o sistema que na modernidade será a pá de cal na condução da raça humana à sua fase mais deprimente. O ataque beligerante à cultura, à moral e aos costumes torna-se a força motora do movimento. Se para Marx a economia sustenta os valores culturais do capitalismo, para Gramsci são os valores da cultura capitalista que sustentam os modos de produção. Por isso é preciso levar a revolução para o campo da cultura. A partir deste ponto o projeto assume forma latente; tendo o câncer se instalado na cultura, pode-se considerar inevitável o declínio das bases da civilização. Uma vez destruída, ou melhor, transformada a cultura, isolar, controlar e administrar a sociedade vira brincadeira de criança.

Décadas mais tarde, o maior país da América Latina viveria seu momento mais sensível e decadente. Adotando o método de infiltração na educação e na mídia, a fim de corromper a linguagem para dessensibilização da cultura, as inteligências por trás do partido fizeram muito bem o dever de casa: enquanto o povo se distrai com bons sofás, controles remotos e smartphones, eles reescrevem a História.

Estabelecida tal anomalia, as preferências do povo são induzidas pelo exercício democrático de liberdades de escolha e ação predeterminadas e vindas prontas de cima. Dito em outras palavras, o povo é livre para escolher e agir segundo as escolhas do sistema. Como isso acontece? Antes de responder a essa pergunta é preciso fazer outra pergunta. Quais são as origens de nossas idéias? Pergunta-se origens, não fundamentos. Esse é o primeiro passo para qualquer pessoa que esteja em busca de esclarecimento e queira realmente entender o que está acontecendo no Brasil e no mundo.

É preciso ter em mente que esse tal de comunismo não é exatamente uma doutrina, mas um movimento. É claro que há um corpo de idéias orientando o movimento, mas ele só pode ser compreendido em seu aspecto utilitário, no sentido de atuar como um sistema pseudocientífico e filosófico que sustenta uma ideologia e coloca em prática o penúltimo estágio do projeto: o socialismo. É nesse estágio que nos encontramos no momento.

Apesar da precisão estratégica de um programa de tal dimensão, todo esse corpo de idéias, cujas premissas poderiam sim ser dignas de reflexão e discussão, no geral não passa de ladainha, crítica ressentida da cultura ocidental e expressão forçada de virtudes inexistentes. Não é à toa que intelectuais marxistas do mundo todo estão há décadas batendo cabeça e operando os malabarismos mentais mais incríveis para corrigir as vírgulas e reticências impertinentes do ideário do mestre, a fim de adaptá-las às novas necessidades político-ideológicas que vão surgindo com o tempo.

O plano é genial e está dando muito certo, admitamos. Hoje, de cada dez pessoas, onze são socialistas; dessas onze, dez não têm a menor idéia de que o sejam. Isso se dá principalmente porque os poucos que têm alguma consciência, se lutam o fazem contra a propaganda do partido ao invés de o fazerem contra a ideologia. Propaganda e ideologia são duas faces de uma mesma moeda que orienta todos os aspectos da vida moderna, inclusive o capitalismo; a primeira representa a tática, a segunda a estratégia. O mais urgente, portanto, é entender o que é a ideologia e adotar vivamente uma postura firme contra ela, caso contrário não haverá luz no fim do túnel. 

A capacidade de entender a gravidade do atual estado de coisas em nossa cultura só será possível se compreendermos os movimentos que se manifestam fora de nós e que o tempo todo pautam as nossas escolhas, os nossos desejos e as nossas idéias. O mundo externo a nós, a realidade objetiva e concreta que aparece diante de nossos olhos, não é imediatamente o que imaginamos ou queremos que ela seja, mas o que ela de fato é, ainda que tenhamos o nosso papel nessa construção. Também as narrativas, sejam elas verdadeiras ou falsas, para o bem ou para o mal, carregam algo de cada um de nós em sua formatação.

Dito isto, é imprescindível um esforço verdadeiro para ter uma mente saudável, empenhando-se na busca pelo conhecimento, e decretando independência de pensamento e lucidez. Não se trata de ter a própria opinião, mas de ter a opinião verdadeira. De próprias opiniões o inferno está cheio. Próprias opiniões esbanjam as elites do partido e os ideólogos que empesteiam as universidades e a mídia do país, pois antes mesmo que as cortinas do teatro se abram, acredite, as únicas coisas pelas quais estão todos lutando é dinheiro, poder, vaidade e demais conveniências que lhes proporcionem vidas menos medíocres.

Em suma, é importante lembrar que essa sanha natural do partido, a fonte que alimenta seus objetivos de poder, não seria possível sem que houvesse primeiro a destruição da inteligência e a decadência moral e espiritual da sociedade. Se alguma esperança ainda pudesse ser vislumbrada, ela só poderia surgir a partir de uma reação corajosa em favor da retomada de nossas capacidades cognitivas naturais. O fantasma que ronda o Brasil só poderá vencer a nossa humanidade se continuarmos aceitando o cenário de catástrofe que há décadas se desenha e que está em seu estágio final.

É impossível ser bem sucedido vivendo da mentira. Mais cedo ou mais tarde a cobrança bate à porta. Já estamos no limite, é verdade, mas pode ficar muito pior se chegarmos a um ponto em que a institucionalização do medo nos conduza à completa incapacidade de reação. Os livros de História estão aí para refutar qualquer objeção a esse respeito. A única maneira de nos vencerem na defesa de nossa humanidade é obrigando-nos a viver com o contínuo medo da verdade.

Cidadania brasileira

No Brasil, cidadania é tornar-se economicamente produtivo, trabalhando mais de quatro meses por ano para sustentar cofres públicos administrados por gente perversa e maliciosa que visa apenas o ganho de capital político e o acúmulo de riqueza e poder; é permitir que o Estado lhe roube mais de 40% do suado rendimento em troca de esmolas e serviços públicos medíocres, enquanto o alto escalão do funcionalismo público no Legislativo, no Executivo e no Judiciário goza de benefícios dignos de marajás – fora o caixa dois – e o pobre espera o aumento de cem reais no mínimo para comprar a picanha.

Cidadania brasileira significa abrir mão da autonomia pessoal em favor de pensamentos e movimentos de massa, de ideais identitários, da sanha coletivista e da trágica negação do eu, ainda que essas praxes estejam pautadas nas mais insanas justificativas, ainda que ao buscar o respeito e a admiração alheia o candidato a cidadão se envolva tão emocionalmente em tudo a ponto de transformar em histeria seu precioso potencial cognitivo. Cidadão na terra da “ordem e progresso” não precisa ser inteligente, basta tolerar a burrice e omitir-se diante da própria ignorância; não precisa ser criminoso, basta ser conivente com o crime e com a mentira. Cidadão que é cidadão não se preocupa com questões morais, senão com as que lhe alimentam a vaidade, questões morais a maioria das quais imposta por teóricos iluminados, a tal intelligentsia moderna, cujos apurado senso crítico e notável saber científico vêm sendo forjado para reescrever a História segundo sua visão de mundo.

No Brasil, ser cidadão é ser um otário convicto e conformado, é ser manipulado, feito de trouxa por políticos e juízes sociopatas, por elites dinheiristas e por uma mídia podre, inepta, oportunista e maquiavélica, e ainda alegrar-se com isso, agarrando-se à grata certeza de ter atingido o ápice da sabedoria, da independência e da liberdade de pensamento, do amor ao próximo, da gentileza e da humanidade. Para ser cidadão num país onde o crime compensa é preciso acima de tudo omitir-se diante do absurdo, vomitar meia dúzia de chavões convenientes em nome da democracia. Como se não bastasse tanto delírio, para ser cidadão nessa joça, é imprescindível adotar o vitimismo e impor o ódio a todos que pensam diferente e são imunes à cegueira coletiva. 

Como cereja do bolo, ser cidadão no Brasil é estar perdido na intimidade da própria consciência, é ser plena e decisivamente indiferente aos princípios básicos da dignidade humana, é crer estupidamente na idéia de progresso e, com igual paixão, ignorar as verdades eternas. Em suma, se você quer mesmo se tornar um verdadeiro e respeitado cidadão, jamais permita que suas palavras e ideais correspondam às suas ações.

Se esse fusca falasse…

Fusquinha verde-abacate cruzando a Paes de Barros, não importa que seja de manhã – eu estudava à tarde –, faz-me lembrar da Mitsuko, professorinha irritante de Matemática. O pior é que de fato aprendi umas coisinhas com ela, embora tanto mais tenha aprendido a considerar a Matemática um saco. No entanto, passando os olhos em minha carteirinha escolar, vejo que não fui tão mal assim, considerando o tipo de aluno nada exemplar que eu era e as impressões e sensações que a atmosfera opressora da professorinha deixava onde quer que ela respirasse – o que minava qualquer habilidade didática e talento que ela pudesse ter no magistério.

Raras foram as vezes que a vi deixar escapar um sorriso daquela boquinha sempre trancada, de lábios tensos e queixo colado no peito. Quando acontecia de sorrir, não se tratava de uma simpatia forçada, admito, mas de algo muito autêntico e sincero, por isso intrigante. É que por mais espontâneo que pudesse parecer esse lado legal da psôra, o que sobrava para o aluno era sempre uma sombra impertinente que se elevava na sala de aula e subjugava a todos desde o fundo da alma.

Não sei por que me vieram tais sensações neste momento; deve ser por causa do fusquinha: fusca verde-abacate tem sempre o mesmo ronco felino, a mesma cor fosca sebosa, o mesmo jeito rastejante de se firmar no asfalto, como se fosse habitual a sofrência por carregar quilos de tranqueira no bagageiro de teto. Não tenho dúvida de que ela morava na Paes de Barros; naquela época todas as professoras moravam na Paes de Barros. Talvez seja por isso que toda vez que eu vejo um fusquinha verde-abacate na rua me vem a bendita impressão de que a Mitsuko está de novo entrando na sala.