Enquanto o clima fétido de Brasília revela a podridão e decadência dos seus esgotos é possível se distrair com o BBB Banânia. Trata-se de um programa divertido, pedagógico e muito exemplar. Ninguém pode dizer que um reality show de relevância e sucesso como esse não seja legítimo, já que apresenta um retrato perfeito das relações humanas no mundo moderno. Distrações fúteis e medíocres são sempre o melhor remédio para impedir que as pessoas exerçam funções cognitivas saudáveis. Daí, a exasperação imaginativa e os surtos emocionais que há tempos dominam a forma como os seres humanos se relacionam e se expressam artisticamente. O sistema agradece colocando no ar programas de televisão extravagantes que esfregam na cara do povo a realidade de sua existência; o povo aceita, agradece e se delicia com isso, afinal é preciso estabelecer uma conexão afetiva com o mundo e consigo mesmo, sentindo-se acolhido e representado.
Eis o recorte da digna miséria que conduz a brasilidade rumo à estimada ordem e progresso de uma República decadente. República, aliás, criada para ser exatamente como é, verdade seja dita. Pois é melhor que assim seja, já que tem muita coisa ainda para se ressignificar. Logo, é imprescindível que o povo não atrapalhe, continue pagando quietinho seus impostos e repita como papagaio o que sai no noticiário e nas redes sociais, visto que o país precisa crescer e se livrar do fascismo. Mais importante ainda é que o povo se mantenha no modo inocente ou idiota útil, para assim se lambuzar de boas com o pão e circo que o sistema lhe entrega. Aberrações morais tendem a se propagar de forma vertiginosa, principalmente quando se vive em um país onde ignorância é sinônimo de autoridade intelectual.
Ninguém é obrigado a concordar com a verdade, eu sei; por isso é que vale tanto a pena dizer a verdade. Sendo assim, é de suma importância que, por mera empatia, por mera covardia ou por mera vaidade, as pessoas continuem acreditando no caráter elevado de homens sem caráter — o que não é muito difícil, já que a verdade é relativa e não se tem mais condições de discernir entre o que é certo e o que é errado.
Portanto, não importa que a turma lá de cima despreze as necessidades reais do povo brasileiro, desde que no discurso estejam apresentando boas intenções, dando sinais de virtude, pronunciando chavões politicamente corretos e divulgando pautas ideológicas úteis. Por isso é necessário que os cidadãos continuem militando, sejam fiéis e conservem com amor e carinho seus políticos de estimação, para que estes mantenham a democracia intacta e protejam o povo já tão sofrido de mais ameaças que possam lhe roubar direitos essenciais para a sua sobrevivência, a saber: liberdade, fraternidade e igualdade.
Talvez desenhar fosse preciso, mas seja como for, no fim das contas, apesar de tantos escândalos e relações no mínimo pornográficas entre os poderes da República, envolvendo políticos, empresários e “homens da Lei”, o que realmente importa é que as pessoas se divirtam ou se compadeçam com a desgraça alheia; acima de tudo, importa que as pessoas saibam, repitam e acreditem piamente que o Brasil está do lado do povo brasileiro. Isso sim é compromisso com a democracia; isso sim é nota de pertencimento; isso sim é ter dignidade.