O erro do racionalismo moderno

O racionalismo moderno é basicamente a crença de que a razão humana — isolada da experiência concreta, da tradição e da realidade vivida — é capaz de reconstruir o mundo do zero. Se pararmos para pensar seriamente, meditando um pouco sobre essa afirmação, ela vai nos revelar uma ruptura perigosa com a ordem da realidade.

Antes de desenvolver propriamente esse raciocínio, façamos um breve exercício de contextualização histórica, aplicando uma lente um pouco mais ampla para identificar as raízes dessa corrente filosófica e, a partir daí, melhor desenvolver a compreensão de onde está o erro.

O racionalismo moderno nasce praticamente com René Descartes, matemático, físico e filósofo francês que viveu na primeira metade do século XVII, período em que publica suas idéias entre as décadas de 1630 e 1640. No coração de sua filosofia está o método cartesiano, em que se propõe começar o conhecimento a partir de uma dúvida radical e, então, reconstruí-lo com base em idéias que ele chama de claras e distintas.

É importante também destacar dois aspectos da formação de Descartes que parecem relevantes se quisermos traçar o perfil psicológico do pensador cuja teoria viria a transformar completamente a forma de pensar e agir no mundo moderno. Um é o de que Descartes estudou em um colégio jesuíta no qual era considerado um filósofo meia-boca; outro é o de que teria sido iniciado na irmandade secreta Ordem Rosacruz, parente próxima da Maçonaria. Se essas duas particularidades são boas ou ruins, cabe-nos perguntar. Por ora, guardemos essas duas informações, pois elas podem ajudar e muito a fluidez das nossas reflexões no decorrer do texto.

De início, a filosofia de Descartes nos dá a impressão de estar comprometida com a verdade. Mas será isso mesmo que o filósofo procura? Haverá algum ruído conceitual ou mesmo de caráter percorrendo as entrelinhas de seu ideário? Se a filosofia de Descartes for um erro, trata-se de um desvio moral, espiritual ou de uma eficiência empreendedora? É seguro confiar nas palavras de um homem cuja biografia é permeada de traços sensíveis à inteligência e às condutas virtuosas? Seja como for, é preciso que comecemos também nós a duvidar da proposta de Descartes, já que seria legítimo, como o próprio filósofo sugere, duvidar de tudo.

Dito isso, que seria então uma dúvida radical? Bem, para Descartes o mundo é uma grande patifaria criada por um gênio do mal para nos enganar e manipular, tipo uma matrix; por isso, seria preciso duvidar de tudo. No entanto, a própria razão nos obriga a supor que, sendo assim, essa regra não deveria se aplicar ao próprio Descartes, já que sendo ele fonte viva da verdade, foi-lhe permitido no momento oportuno deixar as dúvidas de lado e apelar para Deus a fim de justificar um ou outro senão conveniente a sua teoria.

E que seriam as idéias claras e distintas? As idéias claras e distintas são para Descartes o critério de verdade. Segundo ele, só é possível chegar a uma verdade absoluta através desse método; em outras palavras, nós só podemos aceitar como seguro e verdadeiro aquilo que a mente percebe de modo claro e distinto.

Uma idéia é clara quando aparece à mente com evidência, sem confusão, como algo presente e iluminado. Por exemplo, quando alguém está pensando, percebe isso diretamente, sem necessidade de provas; é impossível que alguém não esteja pensando quando está pensando; isso está claro à mente, a pessoa sabe, sente que está pensando.

Por sua vez, uma idéia é distinta quando está separada de outras idéias, com limites bem definidos entre elas, sem mistura nem confusão. Por exemplo, um triângulo é uma figura geométrica de três lados iguais; ele não se confunde com um quadrado, um círculo ou um pentágono; existe uma diferença muito bem pontuada na forma de cada uma dessas figuras que as torna totalmente independentes uma da outra.

Em suma, uma idéia clara é evidente, presente à mente; uma idéia distinta é precisa, sem mistura nem confusão com outras idéias. É a partir dessa descoberta magnífica, própria de seres iluminados, que surge a declaração decisiva de Descartes: quando algo é claro e distinto ao mesmo tempo, deve ser considerado verdadeiro. Voilà. É assim que se chega ao princípio “Penso, logo existo”. Pronto, com esse método a existência do pensamento é percebida clara e distintamente.

Mas será mesmo preciso um método como esse para admitir essas coisas? Penso que isso não significa nada no sentido de estabelecer o reconhecimento de uma verdade absoluta, já que o ato de inteligir parte justamente de uma razão previamente consciente. Quem definiu se as idéias são claras ou distintas foi uma mente capaz de intuir as questões e fazer distinções sobre uma realidade que já é inteligível e distinta por natureza. A verdade está no objeto de intelecção, e não no sujeito que inteligiu.

Hoje essa teoria me parece um pouco estúpida, e até infantil; a meu ver trata-se do óbvio travestido de complexo, um tipo de dissimulação destinada a derrotar todos os porquês; enfim, um gênero de desvio mental que só o talento de uma mente gnóstica poderia produzir. Houve um tempo em que eu acreditava em distorções cognitivas como essa; hoje já não me deixo seduzir. Com o tempo e o amadurecimento intelectual gradativo fica mais difícil fraquejar, pois o grito da realidade vai ficando cada vez mais estrondoso.

Quanto a Descartes, o grito que parece retumbar em sua vida não é este do mundo sensível, concreto e palpável, mas um grito interior perturbando-lhe a alma em busca de um reconhecimento que o torne como Deus criador aqui na Terra.

É justo admitir que estamos falando de um homem dotado de inteligência, mas trata-se de uma inteligência das ciências exatas, que quer transformar tudo em matemática e não tem compromisso sério com as verdades substanciais. O compromisso com a verdade, em consonância com uma coisa chamada virtude, é próprio apenas de verdadeiros filósofos, e a filosofia de Descartes parece se opor frontalmente ao Descartes filósofo.

Uma das interrogações que podem nos ajudar a compreender um fenômeno nítido de paralaxe cognitiva na postura de um filósofo é a mesma que pode ser feita a qualquer um de nós: por que um ser humano inteligente se deixa enganar em questões básicas e óbvias? Olhe você mesmo com atenção para a realidade viva e concreta à sua volta e medite sobre ela; pense em sua biografia, nas histórias que compõem a sua vida e nas circunstâncias que lhes dão credibilidade; examine suas experiências e os pensamentos que despertam sua curiosidade sobre o sentido da vida; faça perguntas a si mesmo e pense nos referentes do mundo concreto, sem os quais a mente humana não passaria de um limbo ausente de signos e significados que impossibilitaria o desenvolvimento de uma linguagem. Se depois de uma reflexão bem meditada você ainda crer que tudo que existe é criação da sua cabeça, saiba: seu pensamento é gnóstico.

Penso; logo, existo. O cogito cartesiano é uma teoria sedutora, de fácil assimilação e simpática às idéias de liberdade, igualdade e fraternidade que ela mesma inspirou; pode ser aceita como verdade acabada por qualquer um, independente do QI, dispensando a inconveniência de provas científicas e o esforço do exame positivo. O mundo moderno se deu muito bem com ela.

Ora, mas por que questionar uma teoria tão badalada, aparentemente legítima e perfeita? Porque a partir deste ponto na história do pensamento surge um inconveniente que vai gerar uma desordem tal da linguagem, cujas consequências estamos vivendo nos dias de hoje. Com o passar dos séculos, o método cartesiano foi sendo levado tão a sério que saiu atropelando tudo que é óbvio, acabando com a hegemonia da realidade, o que também permitiu dessensibilizar as ações humanas de tal modo sem precedentes na História. É importante meditar sobre essas coisas para identificar as segundas intenções de Descartes, porque parece que ele queria mesmo reconstruir todo o conhecimento humano.

A regra que Descartes propõe com seu método é aceitar apenas aquilo que for percebido clara e distintamente. Esse se torna o fundamento do racionalismo moderno. Contudo, vale frisar que o problema desse sistema de pensamento não é o fato de se fazer uso da razão — é natural e imprescindível que se faça uso da razão, afinal isso nos torna seres humanos completos. Acontece que a partir de Descartes passou-se a absolutizar a razão de tal forma que a idéia de transcendência foi desaparecendo do mapa humano, dando lugar à adorada imanência do ser. Sob o pretexto de colocar em pauta um conceito que liberte o homem das amarras e da dependência do metafísico e da realidade vivida, cria-se algo que limita a essência humana e vandaliza sua existência. As considerações ontológicas — ciência do ser —, são diminuídas e passam por um processo gradativo de falsificação: os conceitos de existência, ser, devir e realidade passam a significar unicamente pensamento.

Esse processo foi se desenvolvendo de forma vertiginosa nos últimos cinco séculos, e se mostra vivo e operante ainda nos dias de hoje, em pleno e constante aperfeiçoamento, de modo que segue orientando todos os aspectos da existência humana, sobretudo da comunicação. É preciso muita coragem e honestidade intelectual para admitir que desde o século XVII vem se desenvolvendo um sistema de pensamento que, direta ou indiretamente, escraviza a razão. A idéia genial foi libertar o homem da dependência do transcendente para torná-lo escravo do imanente. Atentar-se a isso é uma questão de sobrevivência, caso contrário essa anomalia nos transformará em verdadeiros párias, vivendo como mortos-vivos, em uma sociedade dirigida por máquinas. Se isso tudo soa como um escândalo escatológico, temos cinco séculos de razões para acreditar que se trata de uma realidade plausível.

A crise inaugurada com o racionalismo moderno está em tratar a razão como sendo uma ferramenta auto-suficiente, no sentido de que ela vai sendo moldada para se bastar em si mesma, independente da realidade que lhe ofusca a visão. É um tipo de conduta intelectual que reduz a realidade concreta a modelos abstratos. Ou seja, tudo que eu vejo no mundo deve vir depois do meu pensamento. Em outras palavras, as coisas existem porque eu as penso, e não o contrário.

Neste momento, alguém poderia dizer: ”Peraí! Isso está errado, porque se eu penso numa Ferrari, ela não aparece na minha frente. Logo, o pensamento não cria a realidade.” Sim, é verdade; mas acontece que o racionalismo moderno não afirma exatamente que o pensamento cria materialmente as coisas. O ponto é mais sutil, e é justamente por isso que ele é tão perigoso. O problema é que a partir de René Descartes, a ordem do conhecimento começa a ser invertida.

Antes do racionalismo moderno, a lógica era a seguinte: primeiro tem a realidade, depois a experiência, e depois, finalmente, a compreensão pela inteligência. Depois do racionalismo moderno, a lógica passa a ser outra: primeiro vem a certeza interior, depois uma idéia clara e distinta, e então a realidade se adequa a essa certeza interior.

Perceba a mudança, a inversão da lógica. O problema do racionalismo não é provocar a idéia de que uma Ferrari vai aparecer em sua frente só porque você pensou nela. A questão é outra: as pessoas passarem a acreditar que aquilo que não cabe em seu modelo mental é menos real, ou até falso, inexistente.

Esse é o erro profundo. A razão deixa de ser um instrumento para conhecer o real e passa a ser um filtro que decide o que pode ou não ser real. Não é mais a inteligência que se adapta à realidade, é a realidade que se adapta à inteligência. Sendo assim, qualquer um pode dizer que é o poste que mija no cachorro.

A verdade é que o racionalismo moderno produziu uma consequência gigantesca na ordem das coisas, porque o mundo concreto passou a ser substituído por construções abstratas. Note que hoje em dia, para a surpresa de zero pessoas que realmente pensam, é comum deparar com gente fazendo os malabarismos mentais mais incríveis para distorcer o óbvio e justificá-lo com construções mentais as mais surreais, seja por ignorância, vaidade ou interesses convenientes. Esse tipo de distorção mental que domina a linguagem do nosso tempo só é possível graças ao desenvolvimento e ao culto do racionalismo moderno.

A experiência humana viva, com sua História, tradição, costumes, intuição moral, sabedoria acumulada, conhecimento de mundo e experiência, passa a ser vista como algo inferior, confuso e irracional, e na modernidade mais recente evolui para as visões estigmatizadas de opressão, autoritarismo, mentalidade atrasada e demais frases prontas politicamente corretas que pautam o debate público.

Todo ser humano que se preze deveria saber que as coisas não são bem assim. Faça você mesmo o exercício: acesse com honestidade a intimidade de sua consciência e você verá. Quem já experimentou em algum momento as maravilhas de uma vida saudável física, mental e espiritualmente sabe disso.

Acontece que, infelizmente, o racionalismo moderno criou uma brecha mental que está destruindo a capacidade cognitiva humana natural. Só vale o que pode ser reconstruído racionalmente do zero. É aqui que nasce a ruptura perigosa, porque todo mundo sabe que a realidade é maior do que qualquer sistema mental.

A realidade concreta é histórica, cheia de nuances, contraditória em aparência, rica em significados implícitos, cheia de ambiguidades que só podem ser esclarecidas justamente porque existe uma coisa chamada inteligência que, para funcionar direitinho, depende intrinsicamente de outras duas coisas chamadas realidade física e realidade metafísica, fontes vivas das nossas impressões e experiências. Mas o racionalismo moderno discorda da gente, exigindo clareza absoluta, distinção perfeita, dedução lógica, estrutura geométrica, independentes do mundo concreto, do transcendente e do movimento das coisas, alheios ao tempo e ao espaço. O que não cabe nesse modelo é descartado.

É exatamente aqui que começa o problema filosófico — e também cultural —, porque quando a realidade é reduzida a esquemas mentais, inevitavelmente começa-se a simplificar o ser humano, simplificar a moral, a sociedade, a tradição e a própria verdade; começa-se a simplificar a lógica e até a identidade das pessoas, quem elas realmente são; e, no fim, o indivíduo passa a viver mais dentro de sua cabeça do que inserido do mundo, a ponto de dizer que dois mais dois são cinco. Essa é a crítica central que todos nós deveríamos fazer ao racionalismo moderno, por obrigação e pela preservação da raça humana.

Também é importante lembrar que pensamento não é matemática; em matemática, dois mais dois serão sempre quatro e nem Deus poderia mudar essa realidade. O pensamento, porém, não se realiza verdadeiramente enquanto estiver submetido à intransigência de dados positivos, os quais estão inseridos no espaço e no tempo cronológico, e não se identificam com a eternidade. Na eternidade, passado, presente e futuro são uma coisa só; portanto, só poderia haver lugar para a inteligência, tornando-se a ciência positiva desnecessária.

Cabe neste momento esclarecer que o objetivo deste ensaio é iluminar o que está na superfície do problema, cabendo aos curiosos e desconfiados aprofundar-se na investigação. Ademais, a crítica aqui não é a de que o racionalismo moderno faça uso da razão, pois fazer uso da razão é correto e necessário; a crítica é a de que o racionalismo moderno absolutiza invariavelmente a razão e mutila a realidade ao dar brecha para abstrações forçadas e artificiais.

A razão deixou de ser humilde diante do ser e passou a agir como engenheira do mundo. Quem discordaria que hoje em dia existe uma espécie de engenharia social dirigindo os costumes e até a liberdade de pensamento? Quando essas coisas acontecem, nasce a tentação de reconstruir tudo: a moral, a política, a cultura, a educação, os costumes, as leis, e até a natureza humana. Tudo passa a ser visto como projeto. Esse é o ponto onde o racionalismo deixa de ser apenas uma teoria do conhecimento e se transforma em uma visão de mundo, que leva a um mundo em plena transformação.

É aí que começam as consequências históricas. Muita gente já deve ter ouvido alguém dizer que a filosofia não deve apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo através da ação prática e política. Eis a sanha maliciosa que o racionalismo criou. Há pouco, falávamos da idéia de Descartes, lá no século XVII, querer reconstruir o conhecimento. Pois é, estamos no século XXI, em um mundo que gira em plena transformação. Isso sim me parece uma idéia clara e distinta. Penso que essa transformação que estamos vivendo hoje seja uma coisa miserável; logo, deve ser mesmo verdade.

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